Reproduzido do blog do autor, 8/1/2012; título original “Radiografia da notícia: Cristina Kirchner não tem câncer”
Por Cláudio Cordovil
Os sitios noticiosos deram no sábado (7/1) amplo destaque à notícia
de que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, não tem câncer de
tireóide, como exames prévios sugeririam. Na quarta-feira (4), Kirchner
teve sua glândula tireóide removida.
Boa notícia para a presidente e para os argentinos. Mas será que ela
deveria contentar jornalistas especializados em Ciência e Saúde? A
resposta é não.
Um bom repórter deveria lembrar que existe uma quantidade considerável
de cirurgias de remoção de glândulas tireóide absolutamente
desnecessárias, e que este, ao que parece, é um mal necessário, a julgar
pelo estado da arte do diagnóstico e tratamento de câncer de tireóide.
O tratamento mais comum é a remoção cirúrgica da glândula tireóide. No entanto, cerca de 70% dos tumores removidos são benignos, o que faz com que muitos pacientes tenham retiradas desnecessariamente essas glândulas.
Neste sentido, ao que tudo indica, não houve erro diagnóstico ou
manobra política no caso de Kirchner, mas limitações inerentes às
técnicas de detecção de câncer de tireóide.
Exame de sangue
Ariel Palácios, correspondente da Globo News em Buenos Aires, preferiu embarcar na tese de manobras políticas. Faltou a ele conhecimento das peculiaridades do diagnóstico deste tipo de câncer. Viva o jornalismo científico!
A única maneira de se determinar se um nódulo da tireóide é benigno ou
maligno, sem remover a glândula, é a realização de uma punção aspirativa
por agulha fina no nódulo suspeito. No entanto, a biópsia nesse caso se
assemelha a uma loteria. Se a agulha não alcançar o nódulo, o paciente
pode ter um resultado falso-negativo. Se o alcançar, ainda pode ser que
aspire somente tecidos sãos, uma vez que tecidos cancerosos são muito
heterogêneos.
Não tem muito jeito. A medicina aqui se defronta com seus limites, que muitas vezes gosta de ocultar.
Até que sejam desenvolvidos biomarcadores
que permitam detectar este tipo de câncer com um simples exame de
sangue, muitas glândulas tireóides muito provavelmente ainda serão
removidas desnecessariamente.

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